versos de chuva. versos cheios, entumescidos, transbordando água e saudade.
por mais que sinta tua respiração ofegante no meu pescoço à noite
eu quero sentir cada vez mais meu coração batendo forte
meu coração explodindo num raio de inúmeros quilometros por hora por quilometros a andar
e encontrar o teu
o teu, desculpe
eu quero sentir o cheiro do teu cabelo
e me culpo se te ferir o peito
se tiver um arranhaozinho no teu braço
um risco de sangue no teu rosto
e me culpo também por querer ver o sol se por e pensar em ti
me culpo por sentir todo o calor que vem de você
e essa chuva começou agora, não passa
sendo a única coisa que eu queria era estar com você numa rede vermelha
vermelha de amor
pra sentir o cheiro de terra quando a chuva cai sobre ela
e eu deixaria ela cair sobre nós
e lavar meus cabelos, lavar os teus pés de moça
os nossos olhos aguados de chuva
nossas mãos servindo de bica pra derramar a água pela garganta
o céu sendo o único testemunho de toda a explosão do meu peito
sob a luz da lua num raio repentino de te querer pra mim
só pra mim
e deito na cama, me reviro sem parar entre o lençol
o lençol cor-de-rosa, lembra?
e eu queria muito abrir a porta do meu quarto e te encontrar me esperando, com cara de sono
com voz rouca, com seu cheiro de menina que me deixa embriagada
mas a chuva cessa um pouco, escuto uns trovões lá longe. será que voce ouve?
será que você sente esse aperto no meu peito? esse cheiro de flor da noite ?
ainda se eu soubesse alguma coisa
ainda se eu fosse alguma coisa
mas longe de você
mas perto de você
nosso sonho, nosso ninho coberto de pétalas de flores aleatórias
eu te daria uma janela bem bonicta
pra eu poder te ver nela
pra eu poder te roubar dela
pra eu te dizer que um dia eu vou chegar
me espera, amor.
me espera que o sol já em vindo
e a sombra das nuvens vão me guiar.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
A benção, vó.
Ri muito ontem com a minha tia. Passamos horas conversando, ela me contou sobre nossa familía, meu avô que morreu com 94 anos e lúcido, meu bisavó, que morreu esclerosado na cama. Cada história que me fez sentir pertencente a alguma ocisa, em algum lugar. Eu estranhei e pensei que eu não estou sozinha, mas sou composta por factos e antepassados.
Minha avó vai fazer 89 anos. Ela está na cama e esclerosada. Não reconhece ninguém, chora por crianças inexistentes, pergunta do vô Chico que já morreu há muitos anos. Já me confundiu com homem e até me ensinou a tirar leite de vaca. De uns tempos pra cá ela tem melhorado muito. E ela, apesar de tudo, sempre teve essa essência de vó Rita, engraçada, besteirenta, cheirosa. E eu amo beijá-la e abraçá-la porque me passa uma energia muito boa dela pra mim. Ela é maravilhosa. Me pega às vezes no braço e fala: nossa, como você tá gorda. E eu rio e pergunto se isso é ruim, ela me fala que não, que tenho saúde. Depois dá uma risada e eu falo que ela é linda, e ela fala, você que é. Um anjo. Um anjo, meu Deus, como ela é uma delícia em pessoa. Tantas histórias. Tantas coisas que ela já passou, dor, alegria, os filhos, os netos, bisnetos. Quando eu era pequena, eu me escondia embaixo da mesa da cozinha e a deixava procurando por mim, ela e minha tia, que elas ficavam desesperadas gritando meu nome, chamando por mim, e eu rindo bem baixinho embaixo da mesa, pra elas não descobrirem. Adorava quando eu comia rapadura. E hoje em dia nem tem mais. E quando ela me deixava pentear o cabelo dela, enquanto ela ficava deitada no sofá. Quando eu tirava todos os matinhos do quintal da casa e ganhava 50 centavos, e eu ficava tão feliz. Na casa da Rua Santa Cruz, do lado do açougue da Bete, que eu ia todo dia pedir bala. Depois gastava minha fortuna acumulada dos 50 centavos em adesivos que eu comprava na feira, às quintas-feiras, na ruazinha perto da praça. E os matinhos demoravam pra crescer, droga, eu queria que crescessem rápido pra eu carpir com a faca de cozinha. Tatu bola, formigas, furos no chão pra jogar bolinha de gude com meu primo. Ela me ensinou uma armadilha de pegar passarinho, mas eu quase nunca tive sucesso. Embora eu adorasse passar o final da tarde esperando um passarinho cair na minha armadilha. Nenhum. Coitadinho. Minha avó... Dona Rita, meu Deus, eu fui criada com ela. E quase não consigo conter minha lágrima de nostalgia e felicidade. Dona Rita que fazia doce de banana, arroz doce que eu sempre amei, sagu de groselha, macarronada com frango frito e salada de alface todo santo domingo. Que assistia o terço todo dia na Rede Vida, às 6 horas da tarde e que deixava a televisão no ultimo volume por não escutar muito bem. A Dona Rita sempre forte, comendo feijão com farinha e frango feito molho, que escovava a dentadura sempre depois de comer, e colocava num copo com água antes de dormir.Que mexia a boca por causa da dentadura e ficava tão linda sem. A boquinha linda que eu adoro beijar, minha avó, meu sangue. A vó Rita que corria comigo um quarteirão e ficava cansada, depois minha mãe me xingava por que eu pedia muito pra ela correr comigo. A vó Rita que me criou. Engraçada a velha. Fala besteira. Falava que eu era uma menina muito daninha, porque eu só atazanava ela e o meu avó. Mas não convivi muito com ele. E com ela, até hoje. Dou comida na boca, olho bem nos olhos dela e penso quanta coisa ela já viveu, meu Deus. Que mulher forte. Até o meu pai morreu primeiro do que ela. E minha mãe, o ser mais iluminado desse mundo, um Amor tão imenso pela mãe dela, pela minha avó, que eu acho lindo de ver, que me dói o peito de tanto Amor por essas duas mulheres que me criaram com tanto carinho. Abraço, beijo, aperto, mordo demais, até transmitir tudo de bom que eu sinto, o quanto eu sou grata por essas duas raridades na minha vida. Dona Rita, minha linda, meu amor, cheirosa, marota, uma casca de braba quando quer, que eu dou risada, porque ela fecha a cara, fica emburrada. D. Rita, eu te Amo tanto. Que saudade de tudo. Das casas onde a senhora morou, onde eu pude brincar, onde eu tive uma infância tão gostosa, comendo sua comida de vó, os bolos, o café toda manhã, a senhora escolhendo feijão e me deixava ajuda-lá. Feijão de feira, que vinha sujo. Sentava na mesa, derramava o feijão. O bom aqui, o sujo ali, depois colocava na panela de pressão e como eu amava aquele barulho da panela, aquele cheiro se alastrando pela casa. Até hoje. Dona Rita que falava: 'que pão de homem' quando olhava o Tarcisio Meira nas novelas ou o Galvão Bueno. Era só risada. Menina daninha. Ela acordava cedo e lavava o rosto com sabonete. Ai eu falava que não precisava de sabonete pra lavar o rosto, não sei porque, mas eu achava que não. Tão linda, o chinelo arrastando, o cabelo sempre armado quando tava comprido. Vó do céu, a senhora é um pedaço de mim. Vó, como a senhora está cheirosa, linda. Eu te amo.
Estendo as mãos juntas pra ela. Benção, vó.
Deus te abençoe, fia.
Minha avó vai fazer 89 anos. Ela está na cama e esclerosada. Não reconhece ninguém, chora por crianças inexistentes, pergunta do vô Chico que já morreu há muitos anos. Já me confundiu com homem e até me ensinou a tirar leite de vaca. De uns tempos pra cá ela tem melhorado muito. E ela, apesar de tudo, sempre teve essa essência de vó Rita, engraçada, besteirenta, cheirosa. E eu amo beijá-la e abraçá-la porque me passa uma energia muito boa dela pra mim. Ela é maravilhosa. Me pega às vezes no braço e fala: nossa, como você tá gorda. E eu rio e pergunto se isso é ruim, ela me fala que não, que tenho saúde. Depois dá uma risada e eu falo que ela é linda, e ela fala, você que é. Um anjo. Um anjo, meu Deus, como ela é uma delícia em pessoa. Tantas histórias. Tantas coisas que ela já passou, dor, alegria, os filhos, os netos, bisnetos. Quando eu era pequena, eu me escondia embaixo da mesa da cozinha e a deixava procurando por mim, ela e minha tia, que elas ficavam desesperadas gritando meu nome, chamando por mim, e eu rindo bem baixinho embaixo da mesa, pra elas não descobrirem. Adorava quando eu comia rapadura. E hoje em dia nem tem mais. E quando ela me deixava pentear o cabelo dela, enquanto ela ficava deitada no sofá. Quando eu tirava todos os matinhos do quintal da casa e ganhava 50 centavos, e eu ficava tão feliz. Na casa da Rua Santa Cruz, do lado do açougue da Bete, que eu ia todo dia pedir bala. Depois gastava minha fortuna acumulada dos 50 centavos em adesivos que eu comprava na feira, às quintas-feiras, na ruazinha perto da praça. E os matinhos demoravam pra crescer, droga, eu queria que crescessem rápido pra eu carpir com a faca de cozinha. Tatu bola, formigas, furos no chão pra jogar bolinha de gude com meu primo. Ela me ensinou uma armadilha de pegar passarinho, mas eu quase nunca tive sucesso. Embora eu adorasse passar o final da tarde esperando um passarinho cair na minha armadilha. Nenhum. Coitadinho. Minha avó... Dona Rita, meu Deus, eu fui criada com ela. E quase não consigo conter minha lágrima de nostalgia e felicidade. Dona Rita que fazia doce de banana, arroz doce que eu sempre amei, sagu de groselha, macarronada com frango frito e salada de alface todo santo domingo. Que assistia o terço todo dia na Rede Vida, às 6 horas da tarde e que deixava a televisão no ultimo volume por não escutar muito bem. A Dona Rita sempre forte, comendo feijão com farinha e frango feito molho, que escovava a dentadura sempre depois de comer, e colocava num copo com água antes de dormir.Que mexia a boca por causa da dentadura e ficava tão linda sem. A boquinha linda que eu adoro beijar, minha avó, meu sangue. A vó Rita que corria comigo um quarteirão e ficava cansada, depois minha mãe me xingava por que eu pedia muito pra ela correr comigo. A vó Rita que me criou. Engraçada a velha. Fala besteira. Falava que eu era uma menina muito daninha, porque eu só atazanava ela e o meu avó. Mas não convivi muito com ele. E com ela, até hoje. Dou comida na boca, olho bem nos olhos dela e penso quanta coisa ela já viveu, meu Deus. Que mulher forte. Até o meu pai morreu primeiro do que ela. E minha mãe, o ser mais iluminado desse mundo, um Amor tão imenso pela mãe dela, pela minha avó, que eu acho lindo de ver, que me dói o peito de tanto Amor por essas duas mulheres que me criaram com tanto carinho. Abraço, beijo, aperto, mordo demais, até transmitir tudo de bom que eu sinto, o quanto eu sou grata por essas duas raridades na minha vida. Dona Rita, minha linda, meu amor, cheirosa, marota, uma casca de braba quando quer, que eu dou risada, porque ela fecha a cara, fica emburrada. D. Rita, eu te Amo tanto. Que saudade de tudo. Das casas onde a senhora morou, onde eu pude brincar, onde eu tive uma infância tão gostosa, comendo sua comida de vó, os bolos, o café toda manhã, a senhora escolhendo feijão e me deixava ajuda-lá. Feijão de feira, que vinha sujo. Sentava na mesa, derramava o feijão. O bom aqui, o sujo ali, depois colocava na panela de pressão e como eu amava aquele barulho da panela, aquele cheiro se alastrando pela casa. Até hoje. Dona Rita que falava: 'que pão de homem' quando olhava o Tarcisio Meira nas novelas ou o Galvão Bueno. Era só risada. Menina daninha. Ela acordava cedo e lavava o rosto com sabonete. Ai eu falava que não precisava de sabonete pra lavar o rosto, não sei porque, mas eu achava que não. Tão linda, o chinelo arrastando, o cabelo sempre armado quando tava comprido. Vó do céu, a senhora é um pedaço de mim. Vó, como a senhora está cheirosa, linda. Eu te amo.
Estendo as mãos juntas pra ela. Benção, vó.
Deus te abençoe, fia.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
Chico, meu bem.
saudade de ouvir Chico
das letras lindas
das letras que lembram momentos lindos
dos meus amigos
violão, risadas, saudades.
saudade de ouvir Chico hoje.
- quem é voce? adivinha se gosta de mim. ( noite dos mascarados)
- tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim o grande amor, mentira. ( samba do grande amor)
- olhos nos olhos quero ver o que você diz, quero ver como suporta em me ver tão feliz (olhos nos olhos)
- pedro pedreiro fica assim pensando e assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás (pedro pedreiro)
- arrasa o meu projeto de vida, querida, estrela do meu caminho (a rosa)
- ai que vida boa olere, ai que vida boa olará, o standart do sanatório geral vai passar ( vai passar)
um cheiro todo cheio de saudade para todos meus amigos
para meus amigos teatrais, do vínculo, da peste, do único.
para nossa essência misturada em algum ponto de nossas vidas.
das letras lindas
das letras que lembram momentos lindos
dos meus amigos
violão, risadas, saudades.
saudade de ouvir Chico hoje.
- quem é voce? adivinha se gosta de mim. ( noite dos mascarados)
- tinha cá pra mim que agora sim eu vivia enfim o grande amor, mentira. ( samba do grande amor)
- olhos nos olhos quero ver o que você diz, quero ver como suporta em me ver tão feliz (olhos nos olhos)
- pedro pedreiro fica assim pensando e assim pensando o tempo passa e a gente vai ficando pra trás (pedro pedreiro)
- arrasa o meu projeto de vida, querida, estrela do meu caminho (a rosa)
- ai que vida boa olere, ai que vida boa olará, o standart do sanatório geral vai passar ( vai passar)
um cheiro todo cheio de saudade para todos meus amigos
para meus amigos teatrais, do vínculo, da peste, do único.
para nossa essência misturada em algum ponto de nossas vidas.
E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
De manhã, levante a tampa
Tsc. Sei lá o que que ele pensa, pensei comigo. Sei lá eu da minha vida.
um sono repentino me bateu, mas não quero dormir. o dia está lindo e eu não posso dormir. é céu azul.
no meu sonho sonhei que eu corria de um assassino, mas eu não saía do lugar. depois eu virei assassino e dei dois tiros à queima roupa num moço que corria feito uma gazela. havia ainda mais duas meninas comigo e elas viram meu ato cruel, também riram comigo. filmei-me matando o cara, não sei se ele morreu. filmei com um sorriso no rosto, um ódio meu escorrendo no sangue dele. depois me dei conta do que eu havia feito, ali mesmo, no sonho, e acordei suando bicas, no lençol limpinho da minha cama, a luz fraca entrando pelas frestas da janela. me senti horrível, um assassino de merda, um canalha, um absurdo. fiquei com medo. eu não tinha apagado as provas. a câmera, estava tudo ali eainda tinha aquelas meninas que estavam comigo, mas elas não contariam, pelo menos eu contava com isso. dormi de novo e tentei voltar ao meu sonho. consegui. a camera, a camera... onde está? tentei lembrar como era o cenário. era uma casa antiga, talvez abandonada. tinha um portão talvez de madeira, quase uma porteira, onde estava o corpo. me lembro que havia muita luz vindo contra meu rosto, então no momento do tiro, parecia uma coisa muito iluminada onde sumiu o corpo. a gazela. ele era alto e magro e usava uma camisa de flanela. não vi seu rosto. atirei nas costas, um na omoplata esquerda outro quase no meio, ele deu um grito de dor, o tronco indo pra frente, as pernas ficando pra trás. a cabeça, a boca bem no chão com tudo, fazendo quicar uma vez a cabeça mole. mas agora eu quero a camera e não acho, quem sabe em cima do criado mudo, na cômoda... tinha uma bolsa em cima do sofá, abri. lá estava a prova do crime, aliviei e tensionei ao mesmo tempo. que merda que merda que merda liguei a camera, o vídeo da morte. dois tiros nas costas, risadas satisfatórias de assassinos, cúmplices de crimes. que horror! passei a mão no meu rosto, gotas de suor, e então apaguei o vídeo sentindo um certo alívio. as meninas haviam sumido. voltei pra fora, no pé da porteira, não havia mais corpo, uma poça de sangue. ele morreu? quem o tirou daqui? olhei em volta, a mesma luz forte fazendo arder os meus olhos suados, ardia. minha camisa de flanela também molhada, eu era um assassino sem provas contra mim. era um assassino. frio, nojento e burro. mas olhei para trás e vi um vulto saindo da porta de onde saí. acordei de repente e a mesma calmaria no quarto, um passarinho piando como sempre faz toda manhã, minha cara de asco, remorso, engruvinhada feito meu lençol, minha cabeça caiu no travesseiro e de repente voltei ao sonho e vi o cara que corria feito uma gazela, apontando uma arma pra mim, ele sangrando, cara de ódio, as duas meninas surgiram do nada na minha frente- eu não fiz nada, disse a ele, mas ele não ouviu, porque não saiu mesmo minha voz, você não sabe da minha vida, sei lá eu da minha vida, gritava e gritava, mas ele não ouvia, ele entendia meu olhar, um silêncio constrangedor, pensei que poderia correr, mas ele atiraria de qualquer jeito, as meninas quietas, rindo baixinho, silenciosa, não havia qualquer som nessa cena, virei-me em camera lenta em direção à porteira, o cabelo acompanhando o movimento em sincronia com as mangas grunges da camisa, tudo, tudo em camera lenta, até minha dor de assassino-morto, assassino-burro, a luz forte ficou mais forte me cegando completamente, senti a unha me perfurando a omoplata, uma bem embaixo logo em seguida, um grito parado, calado, horripilante, minha cara de asco, caí com a cabeça bem no chão de terra, quicou duas vezes. dois tiros também. duas meninas. dois assassinatos. o número não conta. sei lá eu o que conta. mas o número é pura coincidência, um ciclo vicioso de suor risadas malígnas. acordei era claro, sorri nervoso, respirei bem fundo sentindo minha dor tão real, meu remorso do sonho. sentei na cama e meus pés marcavam o piso do chão, levantei e fui ao banheiro, olhei-me ainda inteiro no espelho, ri de alívio, tudo bobagem e mijei um xixi eterno soltando minhas impurezas no esgoto.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Crocante
"Come chocolates, pequena;
Come chocolates"
Como o sorvete crocante que derrete sem querer na minha boca quente. Sorvete de creme com alguma coisa indefinida que na verdade não é nem crocante nem cremosa.
Um ínicio de noite ocioso, como todos os outros, como cada momento infame de minhas respirações, de cada diástole e cístole, de cada célula morta que cai quando tomo banho.
Um dia crocante, talvez? Alguma coisa, meus senhores. Por favor. Apresentem-me. O que diria eu de um sorvete de creme? - adoro.
Impressionei-me com minha vontade de escrever alguma coisa, mas não ter nada pra escrever. Nada de surreal ou filosófico, nada que arda no meu peito solitário. Nada que me faça vomitar as tripas num banheiro público e rir até vomitar mais e chorar até dormir de dor de cabeça. Crocante.
Há uma tabacaria na praça da Matriz, e toda vez que olho pra ela, me dá um sensação de voar. Na verdade eu sempre lembro do poema Tabacaria, do álvaro de Campos. O cara é fodido. Totalmente cru em tudo que se escreve. Me dói um pouco essa crocância nata dos versos brutos. O tapa na cara dói menos do que os versos dele.
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
arrebatador. eu diria, arrepiante. e diria mais, o impossível estúpido como o real. Ó céus. quanta infamia em mim, nele, em cada poro de cada ser, nem nada, nem tudo, o que é?
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
Mas a crocância do 'crocante' do sorvete ainda me é desconhecida. Olho com muita habilidade para deduzir o que é. Crocante é a carne torrada na churrasqueira. Do jeito que eu gosto. Nada de sangue escorrendo ou gorduras pulando. Mas misturar carne com sorvete....
Que ousadia essa minha achar que posso escrever o que me vem à cabeça?(ousadia a minha de querer misturar carne coms orvete) Mas sempre foi assim, Cássia, sempre foi isso. é verdade sempre foi assim desde que me conheço desde que te criei, ó querido quarto empoeirado, ó meu silêncio interno que grita loucamente. sempre fui a de cuspir palavras, a de vir o que vier. talvez de uns tempos pra cá... de uns tempos pra cá nada, minha cara. veja: que nexo tem isso? nenhum, eu respondo, se quiser. e nenhum, eu respondo novamente se não quiseres. pareço meio perdida hoje. hoje? hoje sempre. perguntei-me: o que era o futuro pra mim? que futuro? respondi meio assustada, meio sem saber o que significava a palavra em si, o contexto real. mas não acordei talvez. vê-se claramente meu embaraço, aliás eu acho magnífico como tudo se reflete na minha maneira pobre de escrever. crocante. minha maneira emaranhada de linhas de ideias. ideia coisa nenhuma. você só sabe cortar camisetas. claro, eu as corto porque a gola sempre me incomoda. e o sorvete? ainda não sei sobre o seu ser crocante.
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto
acho que sim, o crocante era de castanha moída, mas ela não estava crocante e sim molhada. venderam-me um sorvete sem crocância. delícia cremosa apenas. quanta barbaridade! por favor, quanta asneira, minha cara. oras, deixa-me.
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas
porque já é noite e estou tomando uma friagem que nãoé fria. estou dentro de casa, entocada, pensando no que posso ser amanhã.e eu posso ser tanta coisa, meu deus, que dom é esse que recebemos? porque às vezes não quero ser nada? sou nada? porque ás vezes nem um crocante me é concedido quando eu compro por esse crocante. olha o queo ócio faz com as pessoas.
mas eu descobri do que era o tal. castanhas. castanhas moídas. mais um mistério desvendado. a Tabacaria da praça da matriz, cuja qual nunca vi o dono. deixarei meus versos a ele. mas o mistério sim, não é mais mistério. porque já é noite, e ninguém me dá sequer um abraço de saudade. uma palavra queme conforte. uma distãncia diminuída.uma coisa qualquer, um desenho, por favor.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Saudade Azul
É saudade e tudo o que vem junto. Quero muito estar ao teu lado e caminhar com as minhas mãos grudadas nas tuas, minha mão fria e suada, meus pés caminhando ao lado dos teus.
É saudade que perde o controle, mas eu tento engolir, fingindo que não é nada demais, que logo passa, mas não passa, não passa. Aumenta. E com ela me dá mais vontade de você, vontade de fechar os olhos e acordar do teu lado, com você me abraçando, com seus olhos guardando nosso ninho e nosso perfume se misturando. Dá vontade de abrir uma porta e sair pra você. E escrevo tudo isso com uma bola de pêlos na garganta. Não sei, devo estar sensível, frágil. Devo estar mesmo.
Toda noite, ao me deitar, imagino-te do meu lado, dormindo um sono calmo, enquanto acaricio os fios sedosos do teu cabelo de menina. Velo teu sono. Me mexo na cama, me embrulho no lençol e chego a sentir o calor do teu corpo. Eu gosto tanto de você.
Mas eu gosto tanto tanto tanto, que nem sei como cabe, nem sei medir. Também não sei se é preciso medir.
Você é meu passarinho azul num céu azul. E eu amo quando ele entra no meu coração e me dilacera. Meu coração azul.
É saudade que perde o controle, mas eu tento engolir, fingindo que não é nada demais, que logo passa, mas não passa, não passa. Aumenta. E com ela me dá mais vontade de você, vontade de fechar os olhos e acordar do teu lado, com você me abraçando, com seus olhos guardando nosso ninho e nosso perfume se misturando. Dá vontade de abrir uma porta e sair pra você. E escrevo tudo isso com uma bola de pêlos na garganta. Não sei, devo estar sensível, frágil. Devo estar mesmo.
Toda noite, ao me deitar, imagino-te do meu lado, dormindo um sono calmo, enquanto acaricio os fios sedosos do teu cabelo de menina. Velo teu sono. Me mexo na cama, me embrulho no lençol e chego a sentir o calor do teu corpo. Eu gosto tanto de você.
Mas eu gosto tanto tanto tanto, que nem sei como cabe, nem sei medir. Também não sei se é preciso medir.
Você é meu passarinho azul num céu azul. E eu amo quando ele entra no meu coração e me dilacera. Meu coração azul.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Abacate
Para ouvir com Edith Piaf - La Java Bleue
Um carrossel luminoso girava docilmente, com seus cavalinhos brancos e roseados, junto com meu cabelo que voava entre o vento e a música. Era quase tudo preto e branco, se não fosse minhas duras piscadas de olho para ter certeza que aquilo era bem colorido, para também tirar um cisco do meu olho. Desci um pouco tonto do carrossel e caminhei até o senhorzinho que vendia algodão doce. Pedi um. Ele me deu gentilmente o algodão doce cor de rosa, felpudo e apetitoso que enrolei entre meu dedos e logo derreteu-se na minha língua. O carrossel ainda girava. Outras crianças brincavam ali. Outro grupo jogando estalinhos no chão, enquanto os adultos riam de suas travessuras. Engraçado como todos os pais acham lindo as travessuras dos filhos. Pensei que quando eu fosse pai eu talvez fosse gostar disso, mas não sei, ainda não tenho filhos, sou pequeno e mal alcanço os pés no chão. Minha mãe estava sentada do outro lado do parque junto com meu irmão mais novo. Ela estava cansada de andar tanto e então me deixou ir sozinho em todos os brinquedos.
Eu sempre gostei de parques. Apesar de um frio na barriga e pessoas altas e estranhas, aquilo me agradava. Do que eu gostava antes de gostar de parques? Sorvetes? Leite materno.
Eu sempre gostei de parques. Apesar de um frio na barriga e pessoas altas e estranhas, aquilo me agradava. Do que eu gostava antes de gostar de parques? Sorvetes? Leite materno.
Carrinho de bate bate. Pirulito que bate bate, pirulito que já bateu, quem gosta de mim é ela, quem gosta dela sou eu. Foi quando olhei em volta, quase perto da fila do carrinho de pipoca ( doce ou salgada), que vi uma menina, no seu vestido meio ralo e um laço de fita no cabelo. O laço era amarelo esverdeado, talvez mais porque eu quisesse do que por própria natureza, na verdade eu não lembro a cor. Meus olhos passaram sobre ela e voltaram quase rápidos para olhar os pés. Apenas segui o olhar dela e ela olhava para o chão. Nos pés uma sandalinha branca e encardida da terra do parque. Mais nada. Alguns ventos de poeira sopravam e ela levantou a cabeça para poder coçar os olhos, um cisco talvez, e olhou-me sem querer, enquanto eu enfiava com muita gula um pedaço gigante de algodão doce dentro da minha boca. Engoli com pressa olhando pra ela. A menina só me olhava, indiferente, poderia ter sido qualquer um. Pigarreei um pouco e fiquei um tanto envergonhado porque percebi, olhando para o algodão doce, que ela ainda estava olhando para mim. Não sei se olhos vidrados ou olhos de pensamento, desses que passa tudo pela frente e a gente continua vendo uma nuvem de ideias. Engoli outro gigante pedaço. Olho ou não olho? Olhei pro chão e vi meu pé também encardido do vento de poeira do parque. Uma poeira vermelha. Fingi tirar uma pedrinha do pé e olhei de soslaio para ela. Ela já tinha se virado. Voltei para agora tirar mesmo uma pedrinha repentina no meio no meu dedinho. Levantei, satisfeito. Ela parou de me olhar.Um constrangimento grande para uma criança em pleno parque de diversões. O algodão estava acabando. Levei bem devagar o último pedaço para minha boca grudenta de açúcar quando sinto outra pedrinha me cutucando as costas. Virei-me. A pedrinha era o dedinho miúdo da menina. Olhei-a, o mesmo olhar vidro-pensamento, achei que eu fosse o objeto especial, especial num mal sentido pra mim, eu não queria mesmo ser um centro de atenções num parque, eu queria vomitar na montanha russa e ficaria muito alegre se ela estivesse na minha frente. Meus dedos dos pés afincaram um pouco no chinelo e olhei também tentando ser um olho de vidro de pirata. Perguntei o que ela queria, um pouco bruto talvez.
- Oi! - engasgando
- Você deixou cair sua pedrinha
- Que pedrinha?
- Sim, esta.
Era uma pedra qualquer do chão. Cor de abacate podre. Assim como os olhos dela. E disse a ela que não era minha. Obrigado!
- Achei que fosse sua. Eu tenho uma ... e é da sorte.
Pouco me importava. Eu ainda estava com medo dos olhos de menina e queria correr me enfiar dentro das pipocas.
- Mas não é.
Dei um passo para trás e mencionei que eu sairia, com um sorrisinho amarelo. Ela parada. Suspirei. Andei alguns passos e a vi do meu lado, andando comigo. Nossos passos sincronizados. Pedrinha? pensei. Cadê a mãe dessa menina?
- Você gosta de algodão doce?- perguntei, numa pergunta qualquer de criança.
- Gosto muito.
- Quer um?
Ela fez cara de quem queria, mas não poderia aceitar. Não disse nada. Eu também não. Pedi dois algodões doces. Um branco e um cor de rosa. Não, um verde, quase borbulhante e um branco, quase empoeirado. Não sei qual eu daria a ela. O verde, porque ela parecia um abacate amassado com açucar e o branco empoeirado, parecendo os pés dela. Talvez os dois.
- Qual você quer?- O verde.
Claro que era o verde. Senti uma poeira doce na minha boca. Me revirou meu estômago. Corri para encontrar minha mãe e ela ainda estava sentada no mesmo banco, meu irmão quase dormindo no meio daquela multidão e luzes e som. Havia deixado a menina pra trás. Sumiu. Voltei ao carrossel, meio zonzo. Tudo era preto e branco de novo, exceto a fita amarelo-verde-abacate da menina, que havia voado do seu cabelo e pousado sem querer bem na crina do meu cavalinho.
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